O muito que eu li, o pouco que eu sei…

September 21st, 2005 | | 1 Comment »

Eu sempre fui bagunceira. Em parte por ter descoberto só aos dezoito anos que as toalhas não se penduram sozinhas nem a cama se arruma por vontade própria, em parte por ser preguiçosa, e em parte por ter uma tolerância alta para bagunça. Para quem pergunta, eu digo que sou uma dessas mentes criativas que não se incomodam com coisas mundanas.

O que eu sempre fui, sim, é curiosa. Então de uns tempos para cá comecei a ler livros de “auto-ajuda” sobre organização. Uma outra ponta do que eu gosto é meio-ambiente. Nesses últimos meses comecei a fechar o círculo de tudo o que eu penso, e as coisas começaram a fazer sentido.

O primeiro livro que eu li sobre organização foi – desculpe, Teca – The Zen of Organizing. A autora explica que organização tem a ver com simplicidade, tranqüilidade, ordem interna. Obviamente, ela advoga pela eliminação de todo o supérfluo, mas sem ser muito radical, já que ela como organizadora profissional trabalha para gente endinheirada. O segredo é descobrir o que para você é supérfluo. Uma pessoa pode achar que ter três raquetes de tênis é necessário, mas espera-se que tal pessoa jogue tênis. Para mim, raquetes de tênis são tão úteis como… (tenho certeza de que conheço uma expressão engraçada para colocar aqui, mas não me lembro agora).

Depois li Order from Chaos. É um livro mais sobre organização de escritórios e gerenciamento de tempo, mas também mudou o meu jeito de pensar sobre várias coisas. Por exemplo, aprendi que escrever tudo no mesmo lugar é mais útil do que ter milhões de post-its, e que guardar as coisas que são mais freqüentemente usadas à mão faz mais sentido do que estar perto do que é mais importante. Parece óbvio, mas pense em quanta gente guarda o diploma na gaveta da esquerda e o grampeador na sala do colega. Gerenciar meu tempo ainda não é o meu forte, mas não falemos disso agora…

A definição mais legal que encontrei de organização foi saber onde as coisas estão e saber onde o seu tempo vai. Por motivos mais do que práticos e autobiográficos, percebi a que ponto a desorganização é fruto de confusão mental e acúmulo de coisas acessórias e inúteis. Qual é o sentido de consumir, consumir, guardar, guardar? As minhas coisas começaram a “murchar” de um ano para cá, depois de intervenções várias principalmente por parte da minha roommate e da minha irmã. Eu também me avivei de certas coisas, já não guardo camisetas queridas e furadas se uma foto pode me lembrar de bons tempos. Eu diria que os últimos três ou quatro meses foram especialmente frutíferos no que diz respeito à diminuição do meu patrimônio material e conseqüente aumento do meu espaço físico e psicológico. Ter coisas também é preocupar-se com coisas. Mas por que todo mundo quer tanto????

Aí entra o meu lado abraçador de árvores e ripongo. Quanto tempo a Terra vai durar se todo mundo comprar o último plástico da China? A natureza, mamãe natureza, não pode ser vista como fonte infinita de recursos e receptáculo infinito de lixo. Vir para os States me abriu ainda mais os olhos. O que é lixo para alguns é a alegria dos estudantes pobres. É assustador, as pessoas nem sequer se dão ao trabalho de procurar um destino mais feliz às coisas, objetos, que outrora quiseram tanto.

Nesse sentido há um movimento de reversão e repulsa ao consumismo que eu estou esperando sinceramente que pegue. As indústrias, que agora têm cada vez mais que pagar pelo espaço que seu lixo ocupa, tentam encontrar outras firmas em que os seus resíduos sejam considerados matéria-prima. E as pessoas cada vez mais tentam dar mais tempo de vida aos objetos inanimados através de doações a entidades não-governamentais ou mesmo a pessoas. Assim nasceram sites como o freecycle, por exemplo.

Essas idéias todas já tinham ressoado em mim quando li Natural Capitalism e depois Waste and Want, em que uma historiadora explica como o way-of-life americano foi modificado para acomodar a obsolescência planejada e a banalização do descartável. Simplificar foi uma idéia que tirei dos livros de St. James, uma autora americana. E correndo atrás de mais informação sobre essa idéia aparentemente revolucionária li sobre um casal que vive com 7 mil dólares por ano, um absurdo de pouco por estas terras. Li o livro – com um título pra lá de cafona – desse casal, e eles enfatizam bastante a idéia de que se trabalha para conseguir o que os vizinhos têm (keep up with the Joneses), ou seja, nós estamos trocando energia vital por objetos de consumo.

Este fim-de-semana – depois de ter escrito este post e guardado no desktop do meu computador sem os links – vi um documentário do canal público daqui (PBS) chamado Affluenza. Influenza é o nome da gripe braba por aqui: resfriado é “cold”, gripe é “flu”, quando o bicho pega é influenza mesmo, como a gripe espanhola. Affluenza é um trocadilho com a doença da afluência, abundância. O casal que eu citei acima aparece no documentário, e várias outras pessoas interessantes que estão tentando mudar alguma coisa. E o filme, de 97, já soa datado, imagino que os números estejam até defasados, e que a quantidade de e-lixo ainda tenha piorado muito.

Eu diria que meu círculo de amigos é principalmente composto de pessoas alternativas. Isso explica por que eu tenho amigos que me confessam fazer o esforço consciente de ter apenas coisas que podem ser transportadas em um carro em caso de mudança (ao invés de um caminhão). Mas também estar nesse círculo faz com que eu me choque cada vez que vejo pessoas que acumulam uma vida de coisas inúteis antes de completar 30 anos. Amigos também, mas eu não posso nem dar um toque e dizer que “ei!”, eles estão enterrando a cabeça em uma quantidade de bagagem que acho que nem meus pais têm. E por falar em pais, quantas caixas de coisas tontas eu tenho lá em casa? Livros, cadernos, quinquilharias ocupando armários?

Eu estou tentando ficar mais leve, sem dieta. Eu quero não gastar meu dinheiro ou minha energia de vida com coisas que serão esquecidas ou não serão usadas. Eu quero ter liberdade de ir e vir sem carregar um mundo de bugigangas. Eu quero ter uma pegada pequena no planeta Terra e que ninguém me culpe de usar recursos naturais da pior maneira. Eu quero ser simples, eu quero ser zen. Ah, e organizada também.

Acho que estou no caminho certo, porque todas as coisas se encaixam, um bom record de Tetris. Agora só tenho que colocar a boca, o dinheiro e o coração no mesmo lugar.


One Comment on “O muito que eu li, o pouco que eu sei…”

  1. 1 Anonymous said at 02:09 on September 23rd, 2005:

    Aposto que vai dar certo.
    Beijos e []´s saudosos
    Fred


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