Da transferência de dados

December 26th, 2008 | | No Comments »

Leia Jane Austen e voce terá uma idéia de como era a paquera da Inglaterra de sua época. Olhares, visitas, bailes, cartas, livros de poesia lidos em voz alta, recados, piqueniques e alguns diálogos cheios de sentidos e intenções eram tudo com que jovens amantes contavam para determinar compatibilidade e caminhar rumo a um matrimônio que tinha que durar ‘até que a morte os separe’.

Houve variações incrementais nesse processo até alguns anos atrás. Pense na geração de nossos pais: rapaz e moça se conheciam e tratavam de procurar semelhanças: quem conhecemos em comum? de quais músicas/filmes/livros gostamos?

É claro que a internet veio aumentar a taxa de transferência de informações. As amizades em comum e apresentações virtuais se dão por redes de relacionamentos. Aí também se encontram as afinidades, assim como nos blogs, fotologs, last.fm e afins. E os rápidos diálogos dão lugar a longos papos no gtalk. Isso, claro, sem contar o Google, grande amigo das marias nerdeiras. Basta um hit com o nome do rapaz em um fórum de astronomia para Aldebaran aparecer no próximo diálogo.

No fim das contas, não há largura de banda no mundo que possa carregar olhares ou toques. Mas a satisfação de levar uma conversa inteligente com alguém que tem muito a ver com você – seja ao vivo numa mesa de bar, sozinhos ao pé do ouvido ou via instant messenger em pleno meio-dia da terça de trabalho – não tem preço!

Este post foi publicado originalmente em 9/4/08, no blog Maria Nerdeira.


Щелкунчик

December 17th, 2008 | | 4 Comments »

Falando de mudança, organização e vida simples com o Ivan LP, ele falou que sua esposa Leila ainda tem sapatilhas de balé guardadas. Eu respondi que eu também tenho, nem tendo sido uma bailarina tão dedicada quanto a Leila. É o cheiro, a textura e a lembrança. Balé é uma coisa apaixonante pelos detalhes que não se vêem na tv.

Fazia tempo que eu não via balé clássico ao vivo, mas matei um pouco da vontade no Quebra Nozes do Rio Sul. O shopping fez uma promoção dando dois ingressos para o balé, e como o Municipal está em obras as apresentações foram no próprio Rio Sul. Para ganhar ingressos, bastava gastar R$1200 em compras de Natal – coisa que meus hábitos de carmelita descalça não permitiriam – ou ser amiga de pessoas influentes. Aí vão minhas impressões…

O lugar: O estacionamento do Rio Sul vem sendo invadido há anos por mais e mais lojas (eu sou do tempo em que só tinha o quarto piso, e a Company era lá). Desta vez foi um auditório que foi montado ali, com direito a tapete vermelho para o público e tudo. Ficou confortável e acomodou todo mundo.

O público: Além da imprensa, havia muitos convidados e alguns tuiteiros: @roneyb, @claudiamello, @renata_lino, @pathaddad, @leocabral, @dj_spark. Dalal Achcar – lenda em pessoa, eu tenho uma amiga que trocou de colégio só pra ter mais tempo de fazer balé na academia dela – e Carla Camurati estavam lá também, vendo a primeira apresentação do próprio espetáculo. Todo mundo se comportou bem, menos a mãe que deixou a criança falar o espetáculo inteiro e aquela que atendeu o celular durante a apresentação. Ou serão a mesma pessoa? Já não me lembro, ainda bem.

O balé: A história é conhecida e linda. Eu tinha visto só uma vez, há muito tempo. Se não me engano, apresentaram a maior parte do segundo ato com pelo menos um número do primeiro ato intercalado, o da Colombina.

Os figurinos: Acho figurino de balé uma delícia, com todos aqueles exageros de brilhos e cores e frufrus. As fantasias eram corretíssimas, só fiquei triste porque a bailarina da dança árabe recebeu uma roupa dourada que se destacava pouco contra a pele dela, as acompanhantes tinham mais destaque em verde escuro.

O cenário: Valha-me D’us, é a única coisa que eu vou criticar com força. Poderiam ter achado uma solução simples que não fosse um painel com um monte de doces desenhados e escrito “Terra dos Doces” em letras fofinhas. Ficou parecendo festa infantil. A gente perdoa, a gente perdoa, por causa do próximo item.

Os bailarinos: Procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina é que não tem. A que fez a dança espanhola é minha preferida, mas o corpo de baile é do Municipal e se apresentou fazendo bonito. Eu me diverti vendo a força e a técnica, imaginando o treino que é preciso para saltar sem barulho, ser levantada no ar pelas costelas e sorrir o tempo todo. Bonito demais.

Adorei ter tido a oportunidade de ver esse espetáculo e, como bem lembrou a Patrícia Haddad, é louvável que um shopping premie com cultura ao invés de sortear carros e cacarecos – até porque essa promoção não dependia de sorteios.

Como eu me faço de fina mas no fundo sou jeca mesmo, depois da apresentação arruinei uma entrevista com a Carla Camurati bem atrás de mim porque comecei a bater palma durante uma conversa. Dizem que o olhar dela pra mim foi fulminante…


Esse código sereno

December 9th, 2008 | | 1 Comment »
RIO DE JANEIRO – Faz mais de ano que não nos vemos, minha velha amiga e eu. Velha é carinho. Mas não precisa apagar a conotação do tempo. Curiosa coincidência. Pensava nela, uns fiapos de reminiscência, e ela me aparece assim sem mais nem menos. Um só instante e estamos à vontade. Está bem, muito bem, posso dizer, sincero. Como a lua, mulher tem fase. Você está na lua nova, digo, convicto. Crescente, ela corrige com bom humor.

Confortável, essa atmosfera que se estabelece entre nós. Podemos retomar agora a conversa de um ano atrás. Entro e saio, divertido, por temas e tópicos. Um monossílabo, um olhar – e estamos entendidos. Nenhuma explicação se impõe. Nosso código está alerta. No que dizemos há mais do que dizemos. Estou mais loquaz do que ela. Mas sem ênfase, ou explicação. Também dispenso as meias palavras. Nossas antigas novidades.

Essa imantação recíproca não se improvisa. Deita raízes longe. E é de lá, desse tempo não mencionado, sequer agora sugerido, é de lá que nos vem esse bem-estar. A serena certeza de que estamos bem como estamos. Essa familiaridade que se instala e quase nos dispensa de seguir a pauta de um encontro não programado. Conversamos de ouvido. De ouvido calamos. A tarde calma não traz nenhum presságio. Aqui estamos, sem pressa nem constrangimento.

No aroma do café, bem forte como prefere, há resquícios de uma velha evocação. Sim, como a lembrança está perto do remorso! É um verso de Baudelaire, não? Mas agora não há remorso nem lembrança. Apenas esta doce partilha. Enquanto falo, seus olhos olham para dentro e sorriem. Sei o que vê e de que sorri. Porque sabe que sei, nada me diz. Nem uma simples palavra de passe. A pique de uma pergunta, se levanta e se serve, displiscente, de mais café.

Caminha, vagarosa, até a janela. Não a conhecesse e diria que contempla, interessada, o que lá fora lhe chama a atenção. Mas não somos neste momento, ela e eu, consumidores de paisagem. Nem de espetáculo, banal ou insólito, pouco importa. A vida isola, penso comigo. A gente devia se ver mais, diz ela. Se prometer que vai reunir os amigos em sua casa, sabe que não vou acreditar. Não promete. Deixar a vida seguir assim, nesse embalo de onda que vai e que vem. E se esvai.

Otto Lara Resende. Folha de S. Paulo, 6/12/92.

(De um recorte amarelado de jornal.)