Diz o dito popular: "morre o homem, fica a fama".

March 24th, 2009 | | 3 Comments »

Apesar de ter certeza absoluta de que vou morrer depois dos 95 anos, sempre leio por aí que é importante se preparar para essa hora. Além de fazer um testamento e diretivas de saúde em caso de incapacidade, é preciso também cuidar do destino da vida virtual.

Alguns dos meus amigos e conhecidos já têm falado nisso há tempos. O Inagaki escreveu sobre o que tem acontecido com os perfis e blogs de pessoas falecidas. O Markun jura que em alguns anos vão ser comuns velórios virtuais. Eu, particularmente, não consigo imaginar essa mistura de streaming com cerimônia fúnebre, mas se forem ao meu, por favor contem piadas! E a Simone já fez o inventário dela há muito tempo, e pediu uma página 404 rosa.

Eu só vi “de perto” três instâncias desse dilema. Uma vez googlei, de bobeira, um conhecido que já não via há tempos, e descobri que ele tinha falecido. Dei a notícia para o nosso amigo em comum – para quem ele tinha sido muito importante – e vi que os amigos dele fizeram uma página “memorial virtual”. Achei feio. Deu a impressão que algumas pessoas estavam competindo para ver quem escrevia o depoimento mais emocionante.

Minha prima, que se declara analfabeta digital, perdeu o marido e continuou usando o endereço de email dele. O enteado reclamou, disse que toda vez que recebia uma mensagem dela achava que o pai tinha baixado no centro espírita. Ela finalmente mudou de email uns três anos depois.

E uma amiga nossa perdeu o marido tragicamente – eram recém casados e ele morreu durante o sono. Ela usou o orkut e msn dele para alertar os amigos e prometeu a si mesma e à família dele não mexer em nada do perfil dele. Ela também aceita os testimonials de amigos saudosos e escreveu no próprio blog sobre a dor imensa de vê-lo ir assim de repente.

Por essas e outras eu quis pensar em um jeito de deixar bem claro o que eu quero ou não depois que eu cantar pra subir.

Método:

  1. Achar um amigo ou parente que esteja disposto a fazer o trabalho pesado depois que eu me for. Tem que ser alguém familiar com a web, claro. No meu caso, achei alguém delicada, acima de qualquer suspeita e que não é da minha família: a Stella.
  2. Abrir uma conta de email que não uso com freqüência mas que ela conhece.
  3. Deixar em meios físicos um envelope com a senha do email, e instruções para que ele chegue às mãos da Stella.
  4. Mandar para esse email as senhas encriptadas através do Firefox Password Exporter. (Isso não é muito seguro, avalie os riscos no seu caso.) Repetir o envio periodicamente.
  5. Decidir se mando para esse email as senhas dos meus bancos. Pode ser que seja desnecessário, pois isso se resolve com a burocracia normal offline.
  6. Decidir se mando para esse email as diretivas de saúde – também posso deixar em meio físico.

As instruções:

  • Email: Guardar por um tempo, depois salvar tudo e mandar pro fundo da gaveta num CD.
  • Email do trabalho: Avisar pro povo da empresa que meu gato subiu no telhado! Para quem trabalha em escritório essa é fácil, para quem trabalha à distância ou faz freela, not so much.
  • Fotos: Se possível, fechar comentários apenas. Se não, salvar as fotos (Picasaweb, Fotolog, Flickr) e apagar as contas.
  • Twitter: Deixar quieto.
  • Blogs: Fechar comentários no Maffalda. No Blogger, isso se faz indo no Dashboard->Settings->Comments->Hide.
  • Youtube: fechar.
  • Orkut, Facebook: Nem pensar em deixar aberto! Salvar só os testimonials. Essas duas redes têm mecanismos para remoção de perfil pelos familiares: aqui e aqui.

Acho que as minhas maiores preocupações são não deixar muitas decisões a serem tomadas pelas pessoas queridas, e evitar que os amigos desperdicem nos testimonials e scraps da vida um sentimento que poderia ser melhor usado se direcionado à minha família.

Mas enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz…