Das duas, uma: foi decisão ou foi distração. Se foi distração – o menos provável – foi bom mesmo ter acontecido. Não estou disposta a pessoas distraídas, desses já tenho lá em casa. E se foi decisão só me resta acatar o seu livre arbítrio. Em todo caso: decepção.
Tá. (Breathing in)
Blue Nude I, Henri Matisse, 1952
Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu
Agora, sim, objetivamente. Passei um carnaval absurdamente divertido. Fui a alguns blocos, já que – dizem – houve um renascimento do carnaval de rua do Rio de Janeiro nos últimos quatro anos. Não brinca!
Brincam uns dez blocos por dia em toda a cidade, e as pessoas nem pensam mais em viajar, e assim as ruas ficam cheias. Programa de índio, mas quem não quer viver pelado pintado de verde uma vez na vida? Se por um lado as almas mais sensíveis reclamam do calor, da chuva, das pessoas suadas, dos ambulantes e suas cervejas nem sempre geladas, da falta de banheiros químicos, do trânsito infernal e de eventuais furtos (carteira, celular e câmera, pra começar), por outro lado há animação de sobra, fantasias divertidas, um clima em geral pacífico, gente bonita (o bloco no Jardim Botânico e o de Santa Teresa foram campeões nesse quesito, o da Lapa também não fez feio), marchinhas antigas, plumas-paetês-e-glitter, confete-e-serpentina, e uma sensação de redescoberta do Rio.
As amigas e seus amigos e os amigos desses constituíram uma turminha que, ao serpentear entre a multidão, me deu mais vontade de sair pulando por aí e me deixou mais "soltinha" (no meu parecer) ou "descontrolada" (no de outrens). Domingo teve dois blocos e quase que o ônibus da cantoria nos leva ao terceiro. Terça foi o dia do maior exagero: foram doze horas de folia. Considerando que eu já estou além da média de idade da juventude carioca bem-nutrida, a minha sobrevivência – atestada neste post – é motivo de orgulho. O ano começa bem e há ainda algum brilho em minha vida.
Seja você quem for, seja o que Deus quiser.
Vinha pensando em alegorias e segredos, em blocos e confetes, mas a turba ensandecida de meus pensamentos só largou de seguir (ou antecipar) o trio elétrico na quarta-feira de cinzas. Quem sabe agora há sobriedade para expressar o que eu sinto.
Sobre o carnaval mesmo conto depois, mas a propósito da época surge a alegoria perfeita: se palavras são máscara, blog (twitter, orkut, msn…) então é fantasia completa. Há tempos me disfarço em escritas crípticas e agora noto que não sou só eu. Não espero que me decifrem aqui, então também não tento adivinhar o outro embaixo da fantasia de pirata, pierrô ou arlequim, sob o perigo de me enganar redondamente e ser enrolada como serpentina. Vamos combinar que o sem-legendas é privilégio de poucos, o resto é intuição e bruxaria. Carece às vezes de palavras adultas e diretas e do despir de adereços.
Hashivenu
Hoje eu andei a esmo. Acontece. Eu quase não tenho senso de orientação, vivo me perdendo, a menos que olhe bem num mapa ou peça instruções à minha mãe. Nem me importei, segui andando. Acabava de sair de um ponto final, mas um ponto final um tanto quanto anticlimático. Um rabisco num papel mais ou menos fecha uma história longa e difícil. Assim tão fácil? Às vezes a gente espera mais fanfarra da vida, e ela não te dá. Já experimentou jogar algo durante uma briga, quebrar tudo pelo efeito dramático? Não funciona, eu já tentei. Dá mais raiva aquele barulho choco no chão. Mas divago. O caso é que devagar andei para longe desse final e por acaso cheguei ao começo. O prédio do CCBB estava bem ali, queria mesmo prestar uma visita ao meu velho amigo, entrei. Fui me sentar justo nos degraus onde, manual de vestibular em mãos, fiz um início. Parece que o meu andar a esmo tinha sido não o desta tarde, mas por mais de uma década, como se eu estivesse andando num grande círculo, como a rotunda, como o campus da Unicamp, como uma tribo kraó, eu andei vagarosamente e cheguei ao ponto inicial. Chorar em público já não é mais vergonha, chorei devagar sem enxugar as lágrimas e tentando descobrir o que é mesmo que me incomodava, ou se nem era incômodo, se era só catarse. Descobri que a minha briga é com o conceito de permanência, retorno, fluidez, todas essas coisas muito difíceis de definir. O prédio, sua luz e sua rotunda, é o mesmo, mas será? Eu sou a mesma e não sou, nunca fui filosófica, por que agora? Porque agora eu, rio, descubro para onde vou. A esmo.
Foto: Kênia Castro

