Largança

April 8th, 2006 | | No Comments »

Eu estava mesmo precisando de uma aventura, e lá estava ele, do outro lado de uma dessas janelas que tecnicamente não vão dar em lugar algum. Um dia ele veio do lado de cá da janela, e confessamos nossos vícios – depois nos atiramos neles. Ele reparava em mim e às vezes dizia que eu estava bonita, nunca que eu era. Também observou como eu fumava e disse que era em little baby drags. E ria das minhas paranóias.

Boa parte do tempo eu não sabia o que ele estava pensando. Como eu tentava!, como eu reparava!, nunca descobria. Se era ambíguo ou se um lado era fingimento, nunca cheguei a saber. O pequeno gênio sempre com a mente anuviada, o menino rico se fazendo de gangster, apaixonado com todas as suas células e fingindo frieza, uma alma feminina agindo masculina, e a pele de bebê com cheiro de cigarro.

Pendurei o meu vestido, costurei, lavei, fiz doce, não literalmente, porque não é assim quem sou, mas eu queria aquele homem mastigando perto de mim não como amante, como um amigo de horas atrás com quem se dividem as velhas piadas de sempre. Nasci mesmo na época errada, deveria ser do tempo em que um bom caso rendia ao menos uma crônica, ou duas, ou três, mas o que há de se esperar de alguém que nunca soube o que é um Rubem Braga na vida?

Quem sabe seja a hora de deixar que ele vá. Ninguém disse que vida de bruxa era fácil.



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