You’re my Poetry Man

April 2nd, 2011 | | 5 Comments »

Você é que nem o James.

O James era um negão – mulato – de dreads. Ele trabalhava no reduto hippie da universidade, um restaurante/lojinha natureba, ele cozinhava todos os dias algum prato vegano. Todos os anos ele dizia que ia voltar para os Camarões e nunca voltava, porque todo semestre de outono trazia uma nova leva de meninas branquinhas e novinhas de New Jersey, que ele, aos 30 e poucos anos, fazia de tudo para pegar.

Veja bem, eu presenciei isso, o James falando as bullshit theories dele para toda uma mesa de garotas que ouviam as suas viagens astrais de iogue hipnotizadas. Ele dava aula de yoga também, não sei se contei, eu fiz uma aula dele toda de calça de lycra colada e ele filmou a minha bunda em close pra mostrar pro instrutor, apesar de eu namorar na época um roommate querido dele. Alguém me disse uma vez, não lembro quem foi mas tenho certeza de que foi um cara: “Você pensa que o tempo que o James está lá na Coop cozinhando e servindo comida, ele está pensando em comida? Claro que não, ele está pensando em mulher, ele está pensando em pegar mulher.”.

Eu mal conheço você, cara, e eu leio seus textos e vejo em cada vírgula bem escrita pura tática e técnica de pegar mulher. Eu não caio nisso porque, sabe, quero crer que as balzacas são mais dificeis de enganar, mas tudo isso me trouxe uma reflexão profunda. Vocês é que estão certos, você e o James, as piruetas e o estudo da vida selvagem têm que ser mesmo de vocês. Como é que eu, ente uterino, vou dar bola para alguém que não fala que quer beijar meus pés, que não me chama de pistoleira nem de coisa nenhuma, ainda faz um ar blasé todo santo dia, um ar de nem aí, tranqs, se vier eu como, mas hoje não posso? Assim não dou.

Sorte minha ter lá o reduto de me acharem tudo, porque senão não sei o que eu faria nesses dias chorosos de revezar o colo entre cabeça e pernas, de pedir comida chinesa e tomar vinho, e também nos dias alegres das safadezas marcadas ou não.

Estou tentando dizer que nos meus dias ruins só uma fé me vale, nos dias bons também, e que eu nunca pensei que fosse ficar triste assim por causa de algo que não fosse a sua, a nossa, a alheia malícia. Eu estou aqui sentindo a minha própria fraqueza no que sempre me foi mais frágil e mais natural.

O James afinal voltou para os Camarões e não abriu nem uma escola de yoga, nem um abrigo de menores, nem virou presidente: ele casou com uma virgem e teve uma filha, como havia de ser.

E você, nego, se quer ser meu amigo tá fadado a ouvir a ladainha de quem, balzaca, ainda não se achou.

Para ouvir: Poetry Man


5 Comments on “You’re my Poetry Man”

  1. 1 admirador não muito secreto said at 03:09 on April 2nd, 2011:

    Muito bonito teu texto. Demorou para escrever mas quando saiu, caiu como uma bomba. Responda: Se a tristeza é o combustível dos poetas, você devia estar muito feliz para deixar de escrever por tanto tempo.
    Que fim trágico o do James. Ele não merecia isto.

  2. 2 maria said at 12:04 on April 4th, 2011:

    sensacional.

    eu sempre digo que os james da vida estão é certos, fazendo a parte deles.

  3. 3 gustavão said at 12:10 on April 4th, 2011:

    Eu acho que vi uma gatinha… Eu acho que conheço quem escreveu esta crônica…

  4. 4 gustavão said at 12:12 on April 4th, 2011:

    Não, conheço não. Mas parece tanto com o que alguém que eu conheço escreve… Inda mais vindo de quem indicou.

  5. 5 Rafael Dourado said at 14:10 on April 4th, 2011:

    James. Mestre!


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