De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido, tempo tempo tempo tempo

June 30th, 2009 | | No Comments »

He visto pocos hombres tan preocupados por todo lo que se refiere al tiempo. Es una manía, la peor de sus manías, que son tantas. Pero él la despliega y la explica con una gracia que pocos pueden resistir. Me he acordado de un ensayo antes de una grabación, en Cincinnati, y esto era mucho antes de venir a París, en el cuarenta y nueve o el cincuenta. Johnny estaba en gran forma en esos días, y yo había ido al ensayo nada más que para escucharlo a él y también a Miles Davis. Todos tenían ganas de tocar, estaban contentos, andaban bien vestidos (de esto me acuerdo quizá por contraste, por lo mal vestido y lo sucio que anda ahora Johnny), tocaban con gusto, sin ninguna impaciencia, y el técnico de sonido hacia señales de contento detrás de su ventanilla, como un babuino satisfecho. Y justamente en ese momento, cuando Johnny estaba como perdido en su alegría, de golpe dejó de tocar y soltándole un puñetazo a no sé quién dijo: “Esto lo estoy tocando mañana”, y los muchachos se quedaron cortados, apenas dos o tres siguieron unos compases, como un tren que tarda en frenar, y Johnny se golpeaba la frente y repetía: “Esto ya lo toqué mañana, es horrible, Miles, esto ya lo toqué mañana”, y no lo podían hacer salir de eso, y a partir de entonces todo anduvo mal, Johnny tocaba sin ganas y deseando irse (a drogarse otra vez, dijo el técnico de sonido muerto de rabia), y cuando lo vi salir, tambaleándose y con la cara cenicienta, me pregunté si eso iba a durar todavía mucho tiempo.”

El Perseguidor. Julio Cortázar.

E assim ainda sinto saudades do futuro e adivinho o passado.

Mesmo quando as coisas ficam ruins, meio-acredito que sou capaz de pensar quinze minutos em dois minutos, ou entre parada e parada de 998.


…é perder o tom.

June 26th, 2009 | | 4 Comments »

Você não, nego.
Não sei se quero te chamar de família.
Nossos mundos correm paralelos.
Só a música toca, se tanto.

(Feio isso de roubar os miolinhos de pão de João e Maria.)

Amor que não se manifesta vira calo.


A vida se repete na estação

June 25th, 2009 | | 3 Comments »

Tirei da gaveta aquele colar de prata que a Ana trouxe de Barcelona pra mim. Estava oxidado, usei assim mesmo, em duas semanas ele poliu contra o meu corpo. Só a parte redonda, um círculo cortado ao meio pra me lembrar que a vida vai e vem, com marcas de mudança a cada tanto. Agora lancei mão do truque da pasta de dente para ajeitar o colar (rabo-de-elefante, diziam antigamente) mas continua um pouco pretinha. Imperfeita e linda, como anda tudo ultimamente.

As linhas entre o que é família e o que são amigos vai se borrando cada vez mais. Os amigos parece que estiveram sempre lá, o laço já não se desfaz tão facilmente.


Pombo correio voa depressa

June 16th, 2009 | | 1 Comment »

Ninguém acredita quando conto da nossa amizade epistolar.

Eu mesma vejo uma versão de mim aumentada, descrita, mais doce por conhecer você, a amiga que mais me ensinou elegância nesta vida, o presente que eu ganhei aos poucos e nunca deixou de me maravilhar.

Hoje eu pincei no meu baú de palavras – numa conversa de fotografias – “esse é o querido do meu coração que um dia eu vou namorar” e depois revi em outros tantos papos o seu coração rolando ladeira acima na direção dele, e dali um pouquinho todo o sono e fome da vida se instalando em vocês dois.

Nunca esperava ter você tão perto, já vi o pequerrucho paquerento um par ou trio de vezes, espero ver muito mais.

Não, também não sei a que vem tudo isso. Lua, conhaque e gratidão. Minha lótus, minha estrela, amo você!


Todo dia ela faz

June 4th, 2009 | | No Comments »

Era governanta na casa dos granfinos, vivia cansada mas fazia tudo sorrindo. Xingava o despertador, levantava e quase não via o tempo se esvair entre o cuidado das crianças – levar à escola, ao médico, conversar, assegurar, ensinar o ônibus, pagar o táxi – e as contas da casa, de que também cuidava. Telefonar para os amigos dos patrões, podemos levar as crianças amanhã para uma visita?, e morrer de medo que dissessem não, que seria dos pirralhos. Um pouco de novela, que ninguém é de ferro, e aí já não sobrava tempo para a depilação, o alisamento, as unhas meio tortas. Voltava para o marido no bairro distante e a felicidade quase inacreditável do abraço dele, um jeito de se perder de tudo. As amigas ligavam, cobravam, sábado nos encontramos, só as mulheres? A outra puxava pela culpa, você mudou, Gislene, não era assim, antes gostava de nós. Ela sorria e se desvencilhava como podia. A casa em constante desalinho, roupas pelos cantos, roupas por guardar, pratos na pia. Era feliz, enfim.

Queria um dia estar com a casa em ordem e sem preocupações de trabalho, assim o amante não ficaria tão esquecido.